Dilma diz sentir orgulho de Belo Monte e se defende de impeachment

Cerimônia de inauguração da segunda maior hidrelétrica do Brasil é transformada em ato político contra o processo

A presidente Dilma Rousseff declarou que sente orgulho de Belo Monte durante a cerimônia de inauguração da hidrelétrica em Vitória do Xingu, no Pará, nesta quinta-feira, 5 de maio. Em seu discurso, destacou a grandiosidade da obra para o país, que dará mais segurança ao suprimento de energia elétrica no Brasil. “Esse empreendimento de Belo Monte me orgulha muito pelo que ele produziu de ganhos ambientais e sociais", discursou para trabalhadores, sindicalistas e moradores locais, e foi ovacionada com aplausos e gritos de apoio.
 
A presidente aproveitou o momento para transformar a cerimônia em um ato político e voltou a dizer que é vítima de golpe pelos partidos de oposição ao governo, em referência ao processo de impeachment em tramitação no Senado Federal. "Não tendo crime de responsabilidade, é golpe, é golpe, é golpe", disse sobre o coro do público de "não vai ter golpe" e de "Cunha, ladrão, seu lugar é na prisão", se referindo ao presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). 
 
"Qualquer processo que tenta dar o golpe para garantir que os sem votos cheguem à presidência, nós temos que repudiar. A democracia é o lado certo da história. Não haverá perdão para os golpistas", disse Dilma, que comemorou discretamente o afastamento de Cunha de sua atividade parlamentar pelo Supremo Tribunal Federal. "Antes tarde do que nunca", disse.
 
As obras civis de Belo Monte estão praticamente concluídas e os trabalhos de montagem eletromecânica continuam no empreendimento. No último dia 20 de abril, começou a operação comercial da primeira turbina da Casa de Força principal, com 611 MW de capacidade, energia suficiente para abater uma cidade como Recife (PE). Além disso, há uma segunda máquina, esta da Casa de Força complementar, de 38,8 MW, em testes. A expectativa é que até 2019 todas as turbinas da hidrelétrica estejam em completo funcionamento.
 
Com 11.233 MW, Belo Monte é a segunda maior hidrelétrica do Brasil (atrás apenas de Itaipu) e a terceira do mundo em capacidade instalada. Sua produção média será de 4.750 MW no período húmido, beneficiando 60 milhões de pessoas em 17 estados brasileiros. A usina faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. O custo inicial da obra foi orçado em R$ 25,8 bilhões, sendo que a maior parte foi financiada pelo BNDES.
 
O evento contou com a participação dos ministros Jacques Wagner (Casa Civil), Marco Antônio Martins Almeida (MME) e Inês Magalhães (Cidades). Também estavam presentes o presidente da Norte Energia, Duílio Figueiredo, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, o presidente da Eletrobras (principal acionista), José da Costa Carvalho Neto, além de prefeitos, senadores, deputados, representantes de ONS e movimentos sociais.
 
O Ministro de Minas e Energia destacou os benefícios sistêmicos e sociais gerados por Belo Monte. "Os benefícios que chegaram são importantes, mas ainda outros muitos por vir", disse ele lembrando que a usina pagará R$ 224 milhões de royalties por ano. Segundo o ministro, o empreendimento empregou um total de 146 mil pessoas.
 
Sobre as características técnicas, o ministro destacou que os aperfeiçoamentos no projeto permitiram que a área alagada da usina fosse reduzida em 60%, totalizando 500 km quadrados. "Metade dessa área já era alagada nos períodos de cheia", sublinhou. Ele ainda destacou que os 4.750 MW médios a serem produzidos pela usina são suficientes para atender 40% do consumo residencial do país. O ministro ainda reforçou que o foco do governo é continuar priorizando as fontes renováveis, em especial as usinas eólicas e fotovoltaicas. "As fontes renováveis continua sendo a maior prioridade da nossa matriz energética."
 
A presidente Dilma Rousseff destacou que os últimos três anos foram difíceis para o setor elétrico, mas que apesar de enfrentar um dos piores regimes hidrológicos da história, o país não precisou lançar mão de uma política de racionamento em 2015. Ela lembrou que durante seus cinco anos de governo foram acrescidos quase 30 mil MW de nova capacidade a matriz elétrica brasileira, além de 28 mil quilômetros de linhas de transmissão. Fez questão de comprar o desempenho com os oitos anos do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em que foram acrescidos 21.418 MW de potência e 10 mil km de linhas. Segundo ela, a falta de investimento do governo FHC no setor elétrico foi o que levou ao racionamento de 2001. "É por isso que, mesmo num momento muito duro, nós não tivemos nenhum problema e fomos capazes de não ter racionamento no Brasil", declarou.
 
Idealizada na década de 1970, Belo Monte enfrentou (e enfrenta) vários questionamentos jurídicos e socioambientais. Chegou a ser alvo de campanha por parte de artistas da TV Globo que não apoiavam a construção. O empreendimento acumula 26 ações do Ministério Público Federal do Pará denunciando irregularidades no licenciamento e descumprimento de condicionantes. No momento, há uma disputa entre os acionistas para ver quem assumirá a responsabilidade de comercializar 20% da energia do projeto que está descontratada. Um processo de arbitragem foi aberto por um grupo de acionistas, que pedem que a Eletrobras assuma esse custo, que pode chegar a R$ 30 bilhões até o final do contrato de concessão, de 30 anos.