Atraso em obras da Abengoa podem causar restrição de geração em Belo Monte

Companhia está endividada e tenta, na Espanha, evitar que credores solicitem a insolvência da companhia

Um possível atraso em obras de transmissão de responsabilidade da Abengoa Concessões pode causar sérias consequências para o sistema elétrico brasileiro. A empresa, que atualmente enfrenta dificuldades financeiras em sua matriz na Espanha, é responsável pela construção de quatro sistemas associadas ao escoamento da energia da hidrelétrica de Belo Monte.
 
A obra mais importante compreende a LT 500 kV Xingu – Parauapebas – Miracema; a LT Parauapebas-Itacaiúnas; e a subestação Parauapebas. O empreendimento foi licitado em 2013 e precisaria entrar em operação em agosto de 2016. Contudo, a estimativa do agente é que o sistema só estará disponível em 30 de setembro de 2017, segundo relatório de fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica.
 
O empreendimento obteve licença previa em 15 de junho de 2015 e ainda não possui licença de instalação. A Aneel apurou que o Ibama solicitou estudos complementares espeleológicos (cavernas) e de fauna para a liberação da LI. A parte fundiária estava em apenas 25%. A Aneel aponta que houve postergação de 10 meses na previsão de conclusão dos empreendimentos. A obra foi paralisada em dezembro em função de “pré-concurso” de credores da Abengoa S.A. na Espanha em 26 de novembro de 2015. O pré-concurso de credores é uma operação que visa evitar que um credor solicite a insolvência da companhia, afundada em dívidas bilionárias.
 
“O atraso nesse empreendimento tem potencial de causar grande restrição na geração da UHE Belo Monte até a entrada em operação do 1º Bipolo. Considerando as previsões atuais dos agentes, é bastante provável que haja restrição de geração no período de novembro/2016 a julho/2017”, alertou a Aneel em seu relatório publicado no final de dezembro.
 
O atraso na oba resultará em “desotimização” da operação do Sistema Interligado Nacional, seja por restrições aos intercâmbios entre as regiões do país ou devido a limitações ao despacho de usinas. “Não envolve interrupção de carga, mas aumento dos custos de operação do sistema”, escreve a agência.
 
A LT 500 kV Marimbondo II – Campinas é outra obra associada ao escoamento da energia de Belo Monte que também se encontra paralisada por conta da situação da Abengoa na Espanha. A licença de instalação foi emitida no dia 19 de agosto de 2015. A obra já havia avançado em 4%. O fundiário está 19% liberado. A previsão é que a linha fique pronta em março de 2017, visando atender aos critérios N e N-1, “compatível com os sistemas de integração das usinas do Rio Madeira e de Teles Pires, possibilitando praticar intercâmbios elevados entre as regiões Norte-Sudeste.”
 
Também paralisado estão os processos envolvendo a LT 500 kV Estreito-Itabirito. A obra não possui licença de instalação e o fundiário está 84% liberado. Segundo Aneel, somente em novembro o agente havia postergado a previsão de conclusão do empreendimento em 7 meses, estimada para 1º de julho de 2018. O sistema tem como objetivo eliminar as limitações de geração nas usinas do Madeira, Teles Pires e Belo Monte e viabilizar o aumento do intercâmbio orientado para a região Sul. Também atenderá a região de maior concentração de carga de Minas Gerais, reduzindo significativamente o carregamento nos eixos de 500 kV e permitindo o atendimento ao critério N-1 para os eixos entre as regiões das usinas do Triângulo e a Subestação Bom Despacho 3.
 
Outra obra paralisada é a instalação da LT 500 kV Miracema-Sapeaçu. Segundo a Aneel, a licença de instalação foi emitida em 16 de março de 2015. A obra está em 20% do seu avanço físico e o fundiário 91% liberado. “A obra tinha bom ritmo até novembro/2015, contando com cerca de 2.154 colaboradores em atividade. Contudo, a obra foi paralisada no mês de dezembro em função de pré-concurso de credores da Abengoa S.A na Espanha em 26/11/2015.” .
 
Além de ajudar no escoamento da energia de Belo Monte, a linha permitirá aumento da exportação de energia do subsistema Nordeste para outras regiões, considerando as gerações térmicas e eólicas provenientes de leilões de energia instaladas ou a serem instaladas na região Nordeste. Procurada, a Agência Nacional de Energia Elétrica informou que está analisando a situação da empresa e que, portanto, não pode comentar o assunto.