Erro em programação da proteção do disjuntor levou a apagão

De acordo com ONS, Belo Monte Transmissora de Energia também deveria ter feito revisão do Sistema Especial de Proteção

O apagão do último dia 21 de março que afetou principalmente as regiões Norte e Nordeste foi causado pela programação indevida da proteção do disjuntor da Subestação Xingu. Em entrevista coletiva realizada nesta sexta-feira, 6 de abril, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Luiz Eduardo Barata, apresentou mais detalhes da ocorrência. Segundo ele, houve um ajuste para que a proteção atuasse com uma corrente de 4.000 Ampere quando a programação normal previa uma corrente maior que isso. Quando o fluxo chegou próximo de 4.000 MW, a proteção se abriu, interrompendo o fluxo da potência.

“Houve um erro no ajuste da proteção”, disse Barata. O relatório final deve ser apresentado em 15 dias, servindo de base para originar eventuais punições da Agência Nacional de Energia Elétrica à Belo Monte Transmissora da Energia, dona do sistema onde tudo aconteceu.

O equipamento suporta até 5.000 A e deveria suportar normalmente os 4.000 A, mas como a proteção estava programada para que ele se abrisse em 4.000 A, houve o problema. Essa programação deveria ter sido informada ao ONS, que não sabia do ajuste nesse valor. Outro fato que aconteceu foi que a BMTE não fez a revisão lógica do Sistema Especial de Proteção para que houvesse corte de geração com a perda do Bipolo de Belo Monte. Esse mecanismo funciona de modo oposto ao Erac, atuando quando há excesso de geração na usina. Quando isso acontece, ele retira as máquinas e alivia o sistema, o que não ocorreu. Caso as máquinas fossem desligadas, a frequência não teria chegado a 70 Hz. “A origem do grande distúrbio foi o indevido ajuste da proteção e a não inclusão da abertura do disjuntor no SEP”, avisa Barata.

Quem também deverá prestar esclarecimentos à Aneel será a Chesf. A região Nordeste foi a mais afetada pelo apagão. Apesar do Erac ter atuado em cinco estágios e a frequência ter se normalizado em 60Hz, duas unidades da UHE Paulo Afonso, de propriedade da estatal, saíram da frequência. Isso causou uma descoordenação e fez a frequência cair para 57,3 Hz. A frequência abaixo de 58,5 Hz fez com que as térmicas desligassem, saindo do sistema. Uma proteção atuou antes da outra na usina. Esse problema na UHE Paulo Afonso ampliou o apagão, uma vez que o sistema já estava fragilizado. “Foi um distúrbio dentro do distúrbio”, explicou Barata. Caso não houvesse esse problema na UHE Paulo Afonso, o Nordeste não teria tido blecaute e a recomposição da região teria sido mais rápida.

De 480 linhas de transmissão em operação no Norte e Nordeste, 458 foram desligadas. Na geração, de 161 usinas de maior porte em operação, 122 saíram do sistema. O sistema em questão deveria ter sido originalmente implantado pela Abengoa, mas devido à falência da empresa, a BMTE acabou por ampliar o sistema existente. Barata não acredita que um evento como esse vá ocorrer novamente, já que a origem dele está fora da visibilidade do operador. Segundo ele, muitos testes foram feitos neste sistema, mas o que houve foi uma falha humana no ajuste da proteção.