Luiz Fernando Vianna: Itaipu blindada de interferência política

Executivo, que deixou oficialmente a direção da empresa na última sexta-feira, 6, fala de seu caráter único no setor elétrico

Profissional experiente do setor elétrico brasileiro, Luiz Fernando Vianna deixou Itaipu oficialmente na última sexta-feira, 6 de abril, com a sensação de ter passado por um empresa única, em que todas as decisões são compartilhadas e exigem um processo permanente de negociação. Tecnicamente, a empresa binacional, que ficou fora da proposta de privatização da Eletrobras por suas peculiaridades, também é diferente das outras empresas do setor, admite o ex-diretor geral brasileiro, em entrevista exclusiva à Agência CanalEnergia.

“É muito mais do que uma geradora de energia, ou do que uma transmissora, ou distribuidora. A sua importância está na característica técnica, que é o grande fator de disponibilidade das unidades geradoras, e que faz com que mesmo não tendo a maior capacidade instalada, seja a usina que historicamente mais gera energia no mundo”, afirma Vianna. O executivo que saiu da Copel há pouco mais de um ano para assumir a direção de Itaipu, deixou a empresa por iniciativa própria para assumir um cargo na Delta Energia.

Embora ele próprio tenha sido indicado para o cargo na estatal pelo governador do Paraná, Beto Richa, a avaliação é de que Itaipu não sofre com as interferências políticas que têm minado, ao longo do tempo, a gestão e a saúde econômico-financeira da Eletrobras. “Há uma blindagem. Como a gestão é compartilhada entre duas direções, brasileira e paraguaia, e todas as grandes decisões são aprovadas em reuniões de diretoria binacional, qualquer tentativa de influência é mínima. Podemos sentir isso nos resultados financeiros da empresa, e na própria autonomia do fundo de pensão”, garantiu Vianna. Veja abaixo a entrevista exclusiva:

Agência CanalEnergia: Como foi a experiência de dirigir uma empresa com as características e a importância estratégica de Itaipu?

Luiz Fernando Vianna: Toda a minha carreira profissional foi construída no setor elétrico. Comecei como estagiário na Copel, e assumir a gestão brasileira de Itaipu foi um desafio nessa trajetória profissional.

Mas Itaipu é muito diferente. É muito mais do que uma geradora de energia, ou do que uma transmissora, ou distribuidora. A sua importância está na característica técnica, que é o grande fator de disponibilidade das unidades geradoras, e que faz com que mesmo não tendo a maior capacidade instalada, seja a usina que historicamente mais gera energia no mundo. Essa é uma característica única, e que me marcou no diferencial técnico das empresas que trabalhei.

Também há mais duas experiências muito relevantes neste período de quase um ano que passei à frente da diretoria brasileira de Itaipu. Por ser binacional, o gestor está em permanente negociação. A diretoria da parte paraguaia é composta por profissionais experientes e nada é imposto, tudo é negociável.

O segundo ponto que é importante destacar, e que diferencia Itaipu, é sua atuação direta com os municípios impactados pela usina, direta ou indiretamente. Neste último ano, ampliamos a atuação de 29 para 54 municípios, apoiando o seu desenvolvimento econômico e social.

Agência CanalEnergia: Que desafios o senhor encontrou nesse período em que permaneceu à frente da empresa e qual é o balanço da sua gestão?

Luiz Fernando Vianna: Foi um período curto em frente à diretoria geral brasileira, mas muitos projetos foram implementados, como a já citada extensão dos municípios atendidos e das ações realizadas junto a eles. Nosso maior desafio era ampliar essa atuação sem onerar a tarifa, e conseguimos! Hoje a tarifa praticada é a mesma de 2017, mesmo com o aumento das ações. Diversos convênios foram firmados que beneficiam tanto a população, quanto a usina. Isso envolve, por exemplo, o encascalhamento das estradas rurais, para evitar o assoreamento do reservatório com as chuvas.

Nessa região também há o predomínio da cultura de proteína animal, que é uma riqueza local, mas que traz como subproduto os dejetos dos animais. Por isso, estabelecemos um convênio com a Copel para geração distribuída de energia à biomassa a partir dejetos, e trazendo benefícios aos produtores rurais.

Outro desafio foi dar início à atualização tecnológica de Itapu, que está em operação há 33 anos, e envolvendo a parte de comando, proteção e controle. Assim, demos início à digitalização de toda a usina, com um investimento de US$ 550 milhões para os próximos 10 anos.

Também considero manter os bons índices de geração como um desafio e, em 2017, registramos um dos quatro melhores anos de geração da usina. Já nos três primeiros meses de 2018, batemos recorde de geração, em cada um deles e, consequentemente, esse é o melhor trimestre da história.

Em gestão de pessoas, um desafio muito grande foi efetuar o alinhamento da compreensão da missão de Itaipu para os 1.400 funcionários, e de todas as áreas. Para isso, com o apoio de uma consultoria, iniciamos o trabalho com os diretores e gerentes e deixamos encaminhado para que o processo continue ao longo do ano e contemple todos os funcionários. Poderia citar diversos exemplos, mas esses foram os principais desafios que a gente conseguiu vencer.

Agência CanalEnergia: O que motivou a decisão de sair da empresa para assumir um cargo na Delta, uma comercializadora privada de energia? Tem a ver com o desafio profissional?

Luiz Fernando Vianna: O Grupo Delta Energia foi pioneiro no setor elétrico em comercialização de energia, e diversificou suas operações por meio dessa expertise. A solidez do grupo e a diversificação dos negócios utilizando esse segmento, foi o que me levou a aceitar o convite para integrar o quadro de funcionários como um novo desafio profissional. Uma oportunidade para me especializar em uma nova área.

Isso porque, atuei nos segmentos de geração, transmissão e distribuição, e tive uma breve oportunidade de conhecer a comercialização de energia quando presidi a Copel Holding, na fundação da Copel Energia, comercializadora, entre 2015/2016.

Agrega também ao desafio profissional a possibilidade de trabalhar numa empresa 100% privada, e diretamente com a área de trading, que foi o que mais me empolgou e que me motivou a sair de Itaipu.

Agência CanalEnergia: O senhor acredita que ser uma empresa binacional, com gestão compartilhada, tem sido suficiente para blindar Itaipu contra o uso político?

Luiz Fernando Vianna: Há uma blindagem. Como a gestão é compartilhada entre duas direções, brasileira e paraguaia, e todas as grandes decisões são aprovadas em reuniões de diretoria binacional, qualquer tentativa de influência é mínima. Podemos sentir isso nos resultados financeiros da empresa, e na própria autonomia do fundo de pensão.

Agência CanalEnergia: Pela sua experiência, dá para comparar a gestão de Itaipu com a de empresas privadas do mesmo porte? Em que ela pode ser melhorada na empresa?

Luiz Fernando Vianna: Essa comparação não é possível, já que Itaipu tem um modelo de tarifa que é único no Brasil, e é uma empresa binacional, com todo o processo de decisão passando pela negociação entre os dois países, tanto em balanço, quanto na gestão. O sistema tarifário de Itaipu é formado, basicamente, pelo custo da usina e a previsão de geração, com o cálculo para o ano seguinte.

A gestão de Itaipu é eficiente, e faz com que seja uma empresa sadia em resultados, com tarifa de geração competitiva no mercado, em aproximadamente R$ 140/ MWh

Agência CanalEnergia: Em 2023, o Paraguai zera a dívida de construção da usina e os termos do acordo com o Brasil devem ser revistos. Essa vai ser uma negociação complexa, em sua avaliação?

Luiz Fernando Vianna: Em 2023 está previsto o pagamento do montante, mas quem liquida a dívida é Itaipu, não há nada com nenhum dos dois países. Hoje a dívida de Itaipu chega a aproximadamente US$ 8,2 bilhões e, anualmente, cerca de US$ 2 bilhões do faturamento são destinados ao pagamento da dívida. Portanto essa questão não será complexa.

O que já está sendo tratado pelos dois países, e que por coincidência deve ser revisto em 2023 é o anexo C do Tratado de Itaipu, que completará 50 anos. Ele foi constituído em três anexos, sendo o A, que é o seu estatuto, o B, que trata da descrição das instalações físicas de Itaipu, e o C, que são as questões comerciais, no qual estão estipuladas, por exemplo, as tarifas e a forma de pagamento dos royalties. Este anexo deverá ser revisto para definir, entre outras coisas, se a tarifa continuará sendo estipulada por custo, ou por mercado, e evidentemente não será uma negociação simples.

Esse trabalho foi iniciado com o diálogo do com as entidades do setor, buscando traçar o perfil do que o Brasil apresentará na mesa de negociação com o Paraguai. Essa negociação deverá continuar em novos governos, já que ambos os países elegem novos representantes neste ano.

Agência CanalEnergia: O que muda com uma eventual cisão de Itaipu do grupo Eletrobras? Pelo quadro político e suas implicações na votação da proposta de privatização da estatal, o senhor acredita que isso seja possível?

Luiz Fernando Vianna: Por sua própria binacionalidade e formato do seu tratado, Itaipu não poderia estar no processo de privatização da Eletrobras. Por isso ela não consta no processo que está tramitando. A privatização da Eletrobras é importante e fundamental para que ela não tenha um agravamento do seu quadro financeiro. Não é sustentável, tampouco admissível, que o governo continue a fazer aportes recorrentes na estatal.