Especialista aponta falha em proteção de linha durante curto circuito em São Paulo

Causas do evento ocorrido na sexta-feira, 11 de janeiro, precisam ser investigadas, mas falta de proteção foi o motivo para que houve explosões e fogo ao longo da linha no Bosque da Saúde, zona sul da cidade

Diversos vídeos amadores, feitos por celulares de moradores do Bosque da Saúde, bairro da zona sul de São Paulo, passaram a circular por diversas redes sociais. O objeto mostrado era um curto circuito grandioso e pirotécnico que ocorreu nesta região da cidade após uma caraterística tempestade neste período do ano, ocorrida na última sexta-feira, 11 de janeiro. O que chamou a atenção nesse caso foi a intensidade e a duração do evento que deveria ter sido evitado se os sistemas de proteção do circuito tivesse entrado em atuação adequadamente.

De acordo com nota oficial da Enel Distribuição São Paulo, o temporal ocasionou uma falha em duas linhas de alta tensão da distribuidora, localizadas no bairro da Saúde. Ao serem religadas, um equipamento do sistema de proteção das linhas, que é de responsabilidade da transmissora Isa Cteep, não atuou no tempo adequado, ocasionando atraso na eliminação da falha. E apontou ainda que esta continuava analisando as causas do atraso na atuação do equipamento até o momento da reposta ao questionamento, realizado no meio da manhã desta segunda-feira, 14 de janeiro. Nesse mesmo posicionamento informou anda que o fornecimento de energia de todos os clientes afetados por essa ocorrência estava normalizado.

Fonte: Video do Whatsapp

Para especialistas em transmissão ouvidos pela Agência CanalEnergia o que não é normal é o tempo de duração do evento que ocorreu em meio à área urbana e que deixou uma pessoa hospitalizada. Por estar localizada em um bairro densamente povoado o fato poderia ter levado a consequências mais graves.

Normalmente, casos como este não ocorrem com frequência em função da existência de sistemas de proteção que são redundantes, justamente para evitar que curtos circuitos possam afetar os ativos. Ressaltaram ainda que os motivos que levaram ao acidente podem ter diversas origens, mas que uma coisa é certa houve uma falha grave no sistema de proteção que é localizado na subestação que conecta a alta com a baixa tensão.

O professor Délberis Lima, do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio, explicou que essas linhas têm faixa de servidão que deve ficar livre por segurança. No caso dos vídeos em questão, disse ele, houve uma clara falha dos sistemas de proteção que são os relés que desarmam os disjuntores quando identificam uma variação de corrente para assim proteger o circuito de eventos como o visto na capital paulista e evitar maiores prejuízos.

“Essa reação dos relés é muito rápida não chega a um segundo entre a identificação do problema e desarme dos disjuntores. Esses equipamentos ficam na subestação da transmissão”, explicou o acadêmico. “Pelo tempo que durou esse curto circuito que levou à queda de cabos de torres de transmissão vemos que o sistema de proteção não atuou como deveria”, apontou.

Há diversas possibilidades que poderiam ser consideradas para o desencadeamento do problema. É possível, por exemplo, a ocorrência de descargas atmosféricas acima do projetado para a linha, envelhecimento dos ativos ou falha de manutenção ou ajuste dos relés. Apenas uma investigação mais detalhada pode apontar o que ocorreu. Inclusive, citou Lima, a análise que deve ser realizada é a oscilografia que registra os eventos, onde houve as alterações de corrente e tensão e a partir daí identificar o porquê da proteção não ter atuado conforme esperado.

Há casos em que o relé não identifica essas variações, mas esses são de menor intensidade e que por isso não teriam o potencial de apresentar tamanho impacto sobre a rede. “Uma corrente tão alta como se apresentou deveria ser identificada”, reafirmou.

Nas imagens é possível identificar explosões e incêndio nos cabos bem como a queda desses em cima de linhas de distribuição local. O problema original ocorreu em linhas de 88 kV. O risco é grande indicou o professor da PUC-Rio, pois esses cabos apesar de não apresentar corrente estão energizados.

Procurada pela reportagem para explicar em que tipo de equipamento houve falha e as ações que estão sendo tomadas, a ISA Cteep afirmou que até o momento do fechamento da reportagem ainda não havia novidades em relação ao caso e que assim que surgirem voltará a se pronunciar sobre o ocorrido.

(Nota da Redação: matéria alterada às 15:00 horas do dia 15 de janeiro de 2019 para acrescentar esclarecimento da Isa Cteep no último parágrafo)