Cepel fundamenta critérios para manutenção em linha viva

Laboratório têm aplicação imediata que visa à segurança pessoal e operacional para serviços de manutenção em instalações energizadas de sistemas UATCC de 800 kV

Durante a conferência internacional sobre Extra e Ultra Alta Tensão (EAT e UAT), organizada no final de abril pelo Cigre e pela International Electrotechnical Commission (IEC) , na cidade de Hakodate, no Japão, o pesquisador do Cepel, José Antonio Cardoso, compartilhou a experiência brasileira sobre manutenção em linha viva em sua apresentação “Manutenção em linha viva em UATCC ± 800 kV – distância mínima de segurança e número mínimo de isoladores em bom estado”.

O trabalho baseado em sua pesquisa experimental realizada no Cepel avaliou a distância mínima de aproximação calculada pela norma IEC, usando uma cadeia de isoladores de suspensão montada em uma torre de transmissão real para sistemas de CC (Corrente Contínua), além da investigação do efeito de isoladores quebrados localizados em diferentes posições ao longo da cadeia. Os resultados obtidos no laboratório têm aplicação imediata na definição de critérios que visam à segurança pessoal e operacional na execução de serviços de manutenção em instalações energizadas de sistemas UATCC de 800 kV no Brasil.

Para Cardoso, os pontos fundamentais para se garantir a segurança total durante este tipo de atividade são a definição da “distância mínima de aproximação”, que é a menor distância entre as partes energizadas e a parte aterrada, considerando as restrições operativas e climáticas e a definição do número mínimo de isoladores ainda em boas condições. “Em sistemas de Corrente Alternada (CA), essas definições são fornecidas pela norma IEC 61472. No entanto, para os sistemas de HVDC, ainda não há normas nacionais ou internacionais publicadas”, esclareceu o pesquisador.

Ele ressalta a vasta experiência do Brasil na realização de manutenção em linha viva em sistemas CA e CC e a contribuição do Cepel para o desenvolvimento de técnicas para esta finalidade desde seus primórdios, tanto por meio da realização de ensaios como de pesquisas sobre métodos e especificações para ensaios. “Na década de 1980, o Centro já realizava ensaios do gênero para o sistema de transmissão de Itaipu ± 600 kV CC em seu laboratório de Alta Tensão, na Unidade Adrianópolis. A experiência consta deste artigo, tendo fundamentado os estudos realizados recentemente (Projeto do Rio Madeira – 2010 a 2015 e diversas atividades laboratoriais para o sistema HVDC brasileiro de ± 800 kV ), e servido de base para a metodologia que será adotada para o novo sistema ± 800kV CC”, afirmou Cardoso.

Laboratório de Ultra-Alta Tensão

Os ensaios de impulso de manobra de que tratam o artigo foram realizados no Laboratório de Ultra-Alta Tensão do Cepel, único do gênero no Hemisfério Sul. A infraestrutura possibilita a montagem de diversas configurações de linhas e torres com dimensões reais, além de permitir a aplicação de tensão no valor de classe de Ultra-Alta Tensão (UAT). São normalmente classificados como UAT os níveis de tensão iguais ou superiores a 800 kV, para sistemas em Corrente Contínua (CC), e superiores a 800 kV, para sistemas em Corrente Alternada (CA).

Cardoso também lembra o nome dos coautores do artigo apresentado, Armando Nigri, da Anigri, e Clerisson Marcos Oliveira, da BMTE. “A partir dos resultados obtidos, calcularam-se a distância de segurança e o número mínimo de isoladores em bom estado para o sistema de ± 800 kV CC”. Na análise dos resultados, ele contou que foi considerada a máxima sobretensão possível, causada por falhas no sistema ou por manobras. Com os valores definidos e a experiência obtida durante os ensaios, foi possível preparar o procedimento para a realização de atividades de linha viva com segurança, bem como fazer algumas considerações sobre o uso da norma IEC em sistemas de HVDC.

Potenciais parcerias

Após apresentação do artigo, Cardoso reuniu-se com engenheiros da Tepco e JPower, empresas de transmissão de energia no Japão, e da Kepco, centro de pesquisas da Coreia, para mais esclarecimentos sobre sua apresentação. “Japão e Coreia não têm a cultura de realizar manutenção em linha viva, porém a demanda por esse tipo de serviço vem crescendo, e ambos os países estão iniciando pesquisas sobre o assunto”, contou, completando que a Coreia ainda tem uma novidade que é a sua primeira linha em CC de ± 500 kV, precisando preparar-se para a manutenção. “Com a troca de informações, é possível viabilizar futuros trabalhos conjuntos entre as entidades”, assinalou o pesquisador.