Furnas irá manter aporte de R$ 1,4 bilhão para 2020 e analisa venda de SPEs

Companhia busca otimizar portfólio para garantir liquidez e ampliar receita, investindo em parques eólicos e UFVs flutuantes. Empresa também avalia participações nos próximos leilões de geração e transmissão

A elétrica Furnas anunciou que planeja manter os investimentos de R$ 1,4 bilhão em geração e transmissão de energia para 2020. O objetivo é ampliar o portfólio de ativos com investimentos próprios e na geração de energia através de parques eólicos e usinas solares flutuantes, já que o momento não é propício para construção de novas hidrelétricas. A empresa também divulgou que compartilhará a expertise de seus profissionais com o mercado, criando uma unidade de serviços para a área de engenharia como um novo negócio dentro da companhia.

“O investimento corporativo será ampliado em 2020 e menos recursos serão destinados as Sociedades de Propósito Específico (SPEs), que estão iniciando e ainda não exigem um pico de recursos”, destacou o presidente Luiz Carlos Ciocchi, em encontro com jornalistas no escritório central da empresa no Rio de Janeiro. Ele informou que a empresa aportará R$ 1,3 bilhão em empreendimentos próprios e R$ 120 milhões nas SPEs, valor que nesse ano foi de R$ 300 milhões. Segundo ele, os aportes já foram aprovados pelos Conselhos de Administração de Furnas e da Eletrobras, faltando agora a homologação pela Secretaria de Empresas Estatais (SEST).

Furnas conta atualmente com 21 usinas hidrelétricas (quatro próprias, seis sob administração especial, duas em parceria com a iniciativa privada e nove sob a forma de SPEs), além de três parques eólicos em participações e duas térmicas convencionais. A ideia é aplicar os recursos na planta eólica de Fortim (123 MW), no Ceará, que deverá ser finalizada em dezembro, e na inserção da fonte solar através de projetos P&D, como no caso das usinas solares flutuantes nos reservatórios das hidrelétricas, e de geração distribuída, como na usina de Anta, no interior do Rio, para aliviar as contas da empresa.

A experiência da UFV flutuante foi observada por executivos da empresa em países como China e Canadá. A ideia é interessante tanto pelo aproveitamento do espaço antes inutilizado quanto pela temperatura das águas, que trazem um maior rendimento a esses sistemas. Há também o fato de uma região hidrelétrica contar com um amplo sistema de escoamento e controle de energia para a rede, pronto já para novas eventuais cargas.

Entre os novos projetos a serem iniciados em 2020, Ciocchi destaca o parque eólico que será construído em Itaguaçu, Bahia, como o mais atraente. Os investimentos no projeto podem chegar a aproximadamente R$ 800 milhões, numa iniciativa que prevê 300 MW em capacidade instalada, contanto também com um mix de geração solar no mesmo terreno. “Estamos esperando o término de Fortim e assim partiremos para esse projeto de grande visibilidade”, ressaltou, confirmando também que as iniciativas fotovoltaicas flutuantes continuarão sendo executados no próximo ano.

Além da disciplina financeira e dos projetos citados acima, a estatal está atenta a novos negócios. O presidente não descartou, por exemplo, a possibilidade de investir em Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) a partir de futuras parcerias. “O Brasil tem um potencial hidrelétrico muito grande, inclusive em PCHs, que pode vir a ser uma nova plataforma da empresa”, avaliou, complementando que uma empresa que almeja ser a melhor e maior geradora de energia elétrica, precisa estar sempre abertos a novas oportunidades.

Ele chamou a atenção também para as termelétricas a gás como uma ótima oportunidade para energia de base e que irá crescer bastante, num mercado promissor devido ao menor impacto ambiental do combustível, com as emissões sendo hoje bastante controladas e reduzidas. “Nos Estados Unidos há térmicas em estacionamentos de shoppings”, exemplificou.

Otimização de portfólio e privatizações

Empossado a três messes no comando de Furnas, o presidente e sua equipe de diretores tem buscado empreender análises ponderadas para uma otimização do portfólio, tendo a chamada disciplina de capital como um dos principais parâmetros. À título de abatimento de dívidas, 44 Sociedades de Propósito Específico (SPEs) foram transferidas para a Eletrobras, que irá decidir o que fará com as concessões. Agora, restam a empresa 64 participações de todo tipo nas áreas de geração e transmissão. “Nossa ideia não é vender, é fazer negócio”, definiu o executivo, citando alguns grandes empreendimentos entre esse montante, como as UHEs Santo Antônio e Teles Pires ou as linhas de transmissão da Mata de Santa Genebra e Belo Monte, afirmando que qualquer negócio, desde que bom para a empresa, poderá ser efetuado.

“Alguns projetos são mais estruturados, com melhores e mais rápidos retornos de investimentos. Outros são mais comprometidos. Depende do retorno dos ativos, mas qualquer negócio pode ser avaliado”, pontuou, lembrando que a última decisão do STF prevê que as subsidiárias criadas pelas empresas mãe possam ser comercializadas diretamente sem precisar de autorização.

Gestão do presidente busca otimização do portfólio, tendo a disciplina de capital como um dos principais parâmetros (foto:Teresa Fajardo)

Sobre a privatização da Eletrobras e suas controladas, Ciocchi, vê o processo com bons olhos e ressaltou que o mesmo deve ser enviado para o Congresso até agosto. “Num cenário onde o governo não tem mais capacidade de investimento em energia, a capitalização é uma saída muito inteligente e simples até, que pode abrir uma janela de oportunidade magnífica para as empresas”, declarou, afirmando que do ponto de vista pragmático, é muito mais fácil realizar um único processo de venda do que quatro em separado, dando o exemplo da recente venda de ações da BR Distribuidora.

A ideia, segundo ele, é voltar a capitalização da holding e a descotização de ativos para que tenham atratividade para o mercado e para as empresas. “Eu não vejo motivos para que o estado tenha que ser controlador do capital. Ele pode ter apenas o veto, o que funciona bem em vários negócios”, comentou. Para ele, as estatais do tipo corporation vão ao encontro do atual mercado, que se encontra pulverizado. “Quem sabe no futuro poderemos internacionalizar Furnas e Eletrobras, assim como a EDP e outras empresas tem feito aqui no Brasil?”, provocou.

Leilões e oportunidades

Questionado sobre a participação nos leilões de geração e transmissão, Ciocchi disse não saber ainda se Furnas participará do A-6, no caso através de alguma sociedade com os inscritos. “Tivemos uma conversa ontem com a Eletrobras para avaliar essa participação”, revelou, mostrando também uma maior pré-disposição da empresa para o certame de transmissão, onde algo sinérgico pode ser identificado no segmento.

“Temos um parque de linhas muito grande, com mais de 20 mil Km de rede. Somos grandes transmissores, o que também nos dá capacidade de conhecimentos como poucos no Brasil, com vários níveis de tensão e inclusive com HVDC”, diz, referindo-se a uma tecnologia de transmissão de energia em corrente contínua de alta tensão.

Quanto a proposta da chinesa SPIC para compra da usina de Santo Antonio, o executivo disse que nenhuma proposta foi entregue a empresa e que tudo está sendo alinhado com a Cemig, que detém 20% dos papéis do ativo junto à Andrade Gutierrez. “Parece que os chineses querem comprar a parte da Odebretch e fazer uma parceria com a gente. Já tivemos uma reunião de apresentação, mas nada conclusivo”, esclareceu.

Ele afirmou que Furnas detém atualmente 43,4% dos papéis da usina, mas quer diminuir sua participação aos 39% originais que tinha na época da assinatura do contrato com os acionistas. É que a companhia teve que colocar mais dinheiro porque a Odebretch não cumpriu em parte com seus investimentos nas ações da época. “Só fizemos isso para garantir as operações, mas queremos voltar ao acordo original”, disse. Para ele, do ponto de vista da SPIC, comprar cerca de 20% dos papeis dessa concessão pode ser interessante para adentrar no segmento, com um horizonte mais amplo de mais aquisições em um futuro reperfilamento de dívidas.

Troca de sede e Centro de Operações

Recentemente confirmada, a estatal irá trocar seu prédio na Rua Real Grandeza, no Bairro de Botafogo, para ocupar todo o prédio antigo da Vale, na Avenida Graça Aranha, Centro do Rio, a partir de 2020. No entanto há um impasse ainda quanto a mudança do Centro de Controle de Operações da companhia, que requer uma atenção especial, em âmbitos tecnológicos e de administração. “Nossa área de operação e engenharia está avaliando essa possibilidade e em cerca de 2 ou 3 meses teremos uma definição”, revelou, deixando em aberto a possibilidade do Centro não ser localizado na nova sede da empresa.

A mudança de sede foi motivada pela política de racionalização de custos e despesas da empresa, e resultará na redução de mais de 50% dos gastos com aluguel e serviços, cerca de R$ 30 milhões ao ano. Atualmente 1.500 colaboradores trabalham no local. Quanto a venda do terreno, metade pertence à Furnas e outra metade a Fundação Real Grandeza, o presidente afirmou que a ideia é realizar o negócio junto a Fundação. “Não vamos procurar clientes. Interesse nós temos mas estamos alinhados com a Fundação. É difícil que isso aqui não seja uma grande oportunidade imobiliária na cidade”, analisou.

Sobre os rumores de insatisfação de alguns funcionários com a mudança, ele confirmou que resistência a mudanças sempre existe e que após o anúncio houve certa polarização de opiniões, mas que após algumas apresentações e conversas aos poucos os colaboradores foram se conscientizando que a alteração de endereço será benéfica. “Conversando é que buscamos o pensamento. Ouvindo as pessoas”, lembrou.

Comercialização de serviços

Outra frente de crescimento estratégico apresentada pelo presidente é a de criar uma unidade de serviços na empresa para aproveitar todo conhecimento técnico, científico e tecnológico dos profissionais da companhia. “Visitei centros de pesquisa e laboratórios na Usina de Furnas e em Goiânia e me deparei com um potencial enorme de uma equipe de especialistas respeitados no mercado, e que a gente precisa de alguma forma criar um canal para que isso se transforme num negócio”, assinalou.

Para isso, a empresa está contratando duas consultorias para avaliar que tipo de clientes ela quer atrair com tecnologias específicas. Uma é especializada na tecnologia de informação e a outra para uma pesquisa de mercado, a fim de identificar as principais tendências e oportunidades. “É uma diferença de enfoque, transformando isso efetivamente em negócio”, resume, citando engenharia fina e sofisticada, laboratórios, testes, desenvolvimento de protótipos e soluções integradoras entre os serviços a serem oferecidos.

Ele lembra que Furnas tem clientes de fora do setor elétrico, como por exemplo no ramo da construção civil, mas que é preciso fomentar mercado ainda mais. “Não estamos construindo hidrelétricas mas podemos atuar na área da construção civil, como uma empresa de serviços”. Outras áreas citadas foram a siderúrgica, mineração e aeronáutica. “Não conheço outra empresa de energia que tenha esse enfoque”, acrescenta. O negócio está iniciando agora, saindo do zero no quadro de receitas da companhia, mas ainda não chegando a atingir 1% nessa discriminação.