Fitch vê “volatilidade e incerteza” nas projeções de geração das eólicas brasileiras

Para agência de risco, cálculos técnicos envolvendo probabilidades de produção de energia de usinas não tem acurácia

A Fitch Ratings enxerga com cautela as projeções de geração de energia das usinas eólicas brasileiras, consideradas sem acurácia por se basearem em dados pré-operacionais com alto grau de volatilidade e incerteza. A análise consta em relatório divulgado pela agência de classificação de risco na última terça-feira, 20 de agosto. Apesar do alerta, a Fitch exalta as vantagens competitivas dos projetos brasileiros em relação aos demais instalados no mundo. A principal delas é a elevada média de 42% do fator de capacidade das plantas locais, chegando a 60% no caso das instaladas no Nordeste, contra uma média mundial de 30%.

Apesar dos ventos naturalmente favoráveis, a Fitch vê problemas técnicos nas estimativas de produção de eletricidade por parte das unidades geradoras do país. Segundo ela, as falhas se refletem em grandes diferenças entre as estimativas P-50 e P-90 dos projetos – ou seja, entre as estimativas de produção anual de energia a partir de probabilidades de ocorrência igual ou maior que 50% e que 90% do tempo. Como consequência desse gap, a agência aplica descontos (haircut) mais severos nas estimativas de produção dos empreendimentos analisados, quando comparados a outros projetos com menor incerteza.

O relatório, baseado em projetos individuais, explica que a geração eólica foi em média 10% menor do que o P-50 estimado, e muito próxima dos volumes de P-90 nos últimos dois anos. “A diferença média entre o P-50 e o P-90 dos projetos do portfólio da Fitch no país varia de 10% a 17%, indicando que os estudos carregam elevado grau de incerteza. No exterior, a diferença costuma ser de 5% a 15%”, diz o estudo. Como consequência, os cenários-base de rating da Fitch aplicam redução média de 6% às projeções de produção de projetos no Brasil, de acordo com a metodologia “Renewable Energy Project Rating Criteria”.

O desempenho operacional abaixo do esperado de projetos brasileiros, segundo a Fitch, fez com que acionistas solicitassem atualização dos estudos de vento com base em dados da fase operacional – a maior parte dos estudos de estimativa de produção de energia dos projetos se baseia em dados pré-operacionais coletados por torres anemométricas. Os estudos de vento que consideraram dados operacionais colhidos no local, levando em conta o desempenho real das turbinas, resultaram em uma redução média da estimativa de produção de energia de 13% do P-50 em relação aos estudos pré-operacionais.

Apesar do desempenho operacional abaixo do esperado na usinas, a Fitch afirma que os projetos eólicos do país não devem enfrentar pressões de liquidez. O estudo ressalta ainda que contratos de comercialização de energia elétrica assinados até dezembro de 2017 possuem mecanismos de compensação anuais e quadrienais que ajudam a mitigar o déficit de geração de energia em um ano específico. A empresa alerta, no entanto, que reduções na curva de geração motivadas por atualizações de projeção de vento provavelmente estarão refletidas em ações de rating negativos para as empresas operadoras.

“A Fitch acredita que a assertividade das projeções de geração eólica no Brasil melhorará à medida que o setor amadureça, que mais projetos entrem em operação e que haja mais dados operacionais, e ainda que as técnicas de previsão e de coleta de dados se desenvolvam”, avalia. A agência acredita que os erros nas projeções de geração de energia elétrica nos parques eólicos podem ser atenuados pelos acionistas que comprometerem uma parte menor da garantia física com contratos de comercialização, utilizando a parcela não contratada da produção como reserva para os casos de regime de ventos abaixo do esperado.