Associações lançam Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos

Iniciativa busca alternativas para destinação de resíduos sólidos urbanos, um mercado que pode movimentar R$15 bilhões até 2030; ABREN pede soma de esforços

A Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos (FBRER) é o resultado da união de quatro associações e conta com o apoio do Ministério de Meio Ambiente. O objetivo é buscar alternativas mais sustentáveis para 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidos no Brasil. A estimativa das entidades é que esse volume de lixo tem potencial para gerar 14.500 GWh/ano por meio de processos de tratamento térmico e 1.400 GWh/ano por meio das rotas biológicas, que somadas tem potencial de movimentar R$15 bilhões em investimentos até 2030.

Fazem parte da FBRER: Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Associação Brasileira de Empresas Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) e Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). As quatro associações assinaram um acordo de cooperação e vão trabalhar juntas para viabilizar soluções técnicas e econômicas em prol de uma destinação mais sustentável dos resíduos.

“O biogás é uma das formas de se promover a recuperação energética dos resíduos e a colaboração entre as associações permitirá a realização de estudos técnicos de modo a levar ao governo propostas de ações estruturadas, auxiliando na criação de políticas específicas para o setor de resíduos”, disse por meio de nota o presidente da ABiogás, Alessandro Gardemann.

Um estudo realizado em parceria entre a ABiogás e a Abrelpe constatou que cerca de 50% do total de resíduos sólidos urbanos gerados no país corresponde à fração orgânica, o que representa um enorme potencial para o aproveitamento energético por meio do biogás. Contudo, pouco mais da metade desse material é destinado para aterros sanitários, onde poderia haver o aproveitamento energético. “Quase 80% do biogás produzido hoje no país é oriundo de resíduos de aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto, comprovando o alto potencial energético das usinas implantadas nestes locais”, explicou Alessandro.

De acordo com as entidades, para aperfeiçoar a recuperação energética será necessário erradicar quase três mil lixões, que trazem graves danos ambientais, sendo substituídos por aterros sanitários regionais. Esses novos empreendimentos podem ser construídos de modo a atender dois ou mais municípios próximos, com ganho de produtividade e escala, trazendo também inúmeros benefícios ao meio ambiente. O Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), que monitora a expedição, movimentação e recebimento dos materiais nas unidades de destinação final, também terá papel fundamental, pois evitará desvios para locais inadequados e indicará onde estarão os volumes produtivos para recuperação energética.

“Através dos aterros sanitários regionais e a recuperação energética teremos um ganho muito grande para a sociedade e para o país, pois resolveremos um grave problema ambiental, geraremos energia e ainda teremos o conceito de zero desperdício, que é a base da chamada economia circular”, destacou Luiz Gonzaga, presidente da Abetre. “Com um ano de funcionamento, os aterros sanitários que substituirão esses absurdos depósitos de lixo a céu aberto estarão aptos a produzir metano e, através das usinas de biogás, podemos ter uma produção elétrica quase dez vezes maior que a atual”, completou Gonzaga.

Além de contribuir para o incremento da oferta energética, a geração de energia a partir dos resíduos sólidos também beneficia todo o sistema de destinação praticado no país que ainda é bastante deficitário. Atualmente, o Brasil conta com um grande percentual (40%) de resíduos coletados com destinação em unidades inadequadas, e poucas iniciativas para recuperação dos materiais (reciclagem não supera 4%).

“Um problema histórico que prejudica a superação desse déficit, e dificulta o desenvolvimento de novas iniciativas, reside no fato de que o setor não conta com recursos adequados nem incentivos para viabilizar os investimentos necessários e o custeio das operações de maneira constante e perene, nem mesmos as básicas. Nesse sentido, a assinatura do acordo busca superar alguns desses entraves, com o estímulo a políticas públicas e ações práticas para assegurar o encerramento das unidades inadequadas (lixões e aterros controlados); parcerias para viabilizar a estruturação de novos projetos; e regulamentação para facilitar a comercialização e uso da energia gerada a partir dos resíduos sólidos”, observa Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe.

A indústria de cimento, por exemplo, é o segmento com maior potencial para operar com grandes volumes de lixo urbano selecionado. A tecnologia de coprocessamento transforma resíduos sólidos urbanos e industriais e passivos ambientais em energia térmica. Neste processo, o resíduo substitui parte do combustível que alimenta a chama do forno – que transforma argila e calcário em clínquer (matéria-prima do cimento).

“O setor cimenteiro pode contribuir no aumento da vida útil dos aterros sanitários e industriais licenciados e, principalmente, às metas públicas de eliminação de lixões e aterros controlados e de recuperação de áreas contaminadas pelos governos estaduais e municipais, atuando novamente na redução das emissões na utilização com o coprocessamento (utilização de combustíveis alternativos (RSU) em substituição as matérias-primas oriundas do petróleo (Coque) no processo de fabricação de cimento)”, disse o presidente da ABCP, Paulo Camillo Penna.

Segundo dados da entidade, enquanto a produção de cimento aumentou 273% entre 1990 e 2014 (de 26 para 71 milhões de toneladas), a curva da emissão de carbono cresceu 223% nesse intervalo, uma redução de 18% das emissões específicas (de 700 para 564 kg CO2 /t cimento)

O Roadmap Tecnológico do Cimento – documento concluído pela ABCP em 2019 – foi construído em conjunto com instituições internacionais, como: IFC (International Finance Corporation) do Banco Mundial, IEA (International Energy Agency) e Academia, aponta que o coprocessamento de resíduos será responsável pela redução potencial de 13% do total de emissões de carbono do setor, o que representa cerca de 55 milhões de toneladas de CO2 até 2050, justificando a atenção que o tema tem recebido.

“Utilizando o lixo, as companhias poderão substituir até 80% do combustível utilizado hoje no processo produtivo. Além disso, por meio do coprocessamento é possível que haja a destinação definitiva, técnica e ambientalmente segura, de resíduos urbanos e industriais e de passivos ambientais; ter uma fonte alternativa de energia; apoiar a preservação de jazidas e recursos energéticos não-renováveis pela substituição do combustível convencional, além é claro da geração de novos empregos e da contribuição à saúde pública, por exemplo, no combate aos focos de dengue (pneus velhos)”, completou Penna.

Nesse cenário, é enorme o potencial de contribuição das entidades com processos e iniciativas de destinação além das estabelecidas pela PNRS, e dessa forma assumem relevantes responsabilidades no que se refere à criação de ambiente favorável à logística reversa e à geração de soluções sustentáveis para a sociedade.

Com investimentos que podem chegar a R$ 15 bilhões a partir da implantação de diferentes tecnologias, o processo de recuperação energética de resíduos vai beneficiar diretamente para a redução da geração de chorume nas unidades de disposição final; redução da geração de gases de efeito estufa, mitigando a emissão de 90 mil toneladas/ano de CO2 equivalente na atmosfera para cada mil toneladas de RSU tratado nas UREs comparável com a emissão de 5 mil carros; aumento da reciclagem de materiais contidos nos Resíduos Sólidos Urbanos, a partir de uma melhor seleção ou separação, com a consequente preservação dos recursos naturais; retorno de parte da energia consumida na produção; substituição de combustíveis não renováveis (fósseis) na produção de cimento, com resíduo processual perto de zero; e ampliação da vida útil dos aterros sanitários atualmente em operação, medida extremamente importante já que em todo o país são registradas crescentes dificuldades na implantação de novos aterros sanitários

ABREN pede somar de esforços

A Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN) disse, em nota, que foi surpreendida com a criação da Frente, após um ano de atuação e de registrado do nome. Disse que a atuação “paralela de entidades setoriais enfraquece o mercado e pode causar prejuízos a todos os associados.”

A ABREN integra o Global Waste to Energy Research and Technology Council (Global WtERT), instituição de tecnologia e pesquisa proeminente que atua em diversos países, com sede na cidade de Nova York, Estados Unidos, tendo por objetivo promover as melhores práticas de gestão de resíduos por meio da recuperação energética e da reciclagem. O presidente executivo da ABREN também é o atual Presidente do WtERT – Brasil.

“A ABREN informa que está a disposição para somar esforços com todas as associações que tenham como propósito o desenvolvimento da recuperação energética de resíduos no Brasil, desde que a atuação seja acertada, com transparência e respeite os valores e objetivos da ABREN e seus associados”, finaliza a nota.