Primeira usina de biogás para leilão inicia operação comercial

Empreendimento confirma a vocação do Brasil para produzir energia renovável a partir de resíduos

O primeira usina de biogás a comercializar energia em leilão regulado iniciou oficialmente a operação comercial nesta quarta-feira, 12 de agosto, em São Paulo, no município de Guariba, há 338 km de distância da capital paulista. Segundo o despacho Aneel nº 2.355, publicado no Diário Oficial da União, três turbinas receberam a autorização, totalizando 8,95 MW de capacidade instalada.

O empreendimento foi licitado em 2016 e é o primeiro projeto da Raízen Geo Biogás, joint venture entre a Raízen (85%) e a Geo Energética (15%) para a produção de biogás a partir de resíduos agrícolas. O contrato de 96 mil MWh/ano com o mercado regulado iniciará em janeiro de 2021. Até lá, os investidores poderão comercializar o excedente de energia no mercado livre.

“A exportação de energia da planta de biogás da Usina Bonfim simboliza a criação de um novo mercado de energia renovável, biogás e biometano no Brasil, com um potencial de desenvolvimento exponencial através do uso de resíduos agrícolas”, disse Alessandro Gardeman, CEO da Geo Energética e presidente do Conselho da Abiogás, em nota à imprensa.

A planta produz biogás e energia por meio da biodigestão de torta de filtro e vinhaça, subprodutos do processo industrial de produção de açúcar e etanol. Com 21 MW de capacidade instalada, o empreendimento foi construído junto à usina Bonfim, unidade da Raízen com a segunda maior moagem de cana do grupo – mais de 5 milhões de toneladas por ano. A planta de biogás operou por cerca de 30 dias em testes e está conectada na rede da CPFL Energia.

Raphaella Gomes, diretora de Biomassa e Renováveis da Raízen, explicou que, teoricamente, com a mesma tonelada de cana será possível aumentar a produção de energia em até 50%. Ou seja, 1 ton de cana produz 50 MWh por meio do processo de queima da palha da cana. Agora, serão adicionados mais 25 MWh por meio da biodigestão de torta de filtro e vinhaça. “É aumentar em 50% o potencial de geração de energia elétrica com a mesma área plantada, com o mesmo ativo industrial”, reforçou.

Mesmo depois do processo de produção de biogás, o resíduo resultante ainda será utilizado como adubo “turbinado”, rico em potássio e nitrogênio.

A usina sucroenergética Bonfin produz 2,3 bilhões de litros de vinhaça e 150 mil toneladas de torta de filtro por ano, o que permite a usina de biogás produzir 138 mil MWh/ano. Desse total, 70% está comprometido com o mercado regulado, adicionando uma receita anual de R$ 24,8 milhões (a preços de abril/2016) ao negócio.

A Raízen Geo Biogás não revela o valor atualizado do investimento, mas não esconde o desejo de seguir investindo nesse mercado. Na época do leilão, o investimento declarado à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) era de R$ 129,8 milhões, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Hoje a Raízen já é a maior produtora de energia a biomassa do país, com 1 GW de capacidade instalada a partir do bagaço de cana de açúcar. Depois de consumir parte da produção de energia no processo de fabricação de açúcar e etanol, a companhia ainda exporta anualmente para o Sistema Interligado (SIN) algo entre 2,3 e 2,5 TWh.

“O Brasil tem um potencial enorme de produção de biogás de resíduo agrícola e urbano. Se eu pegasse todo esse potencial e transformasse em energia gerada a biogás, poderíamos gerar 170 TWh ano ou 40% da demanda nacional por eletricidade, sendo que metade desse potencial vem do setor de cana de açúcar”, frisou Gomes, em entrevista exclusiva à Agência CanalEnergia.

Cabe lembrar que a maior parte da produção de cana de açúcar está localizada no centro-sul do país, ou seja, próxima a principal região com a maior demanda por energia elétrica do Brasil.

Outro potencial do biogás é passar o produto por um processo de purificação e produzir biometano, que pode ser utilizado como combustível em veículos ou até mesmo ser comercializado por meio de gasodutos. No entanto, essa é uma linha de negócio que ainda não é explorada pela Raízen Geo Biogás. “Se eu não gerasse energia em Bonfin, teria uns 35 milhões de metros cúbicos de biometano, suficiente para substituir 32 milhões de litros de diesel”, disse Gomes.