Restrições na transmissão ainda impedem uso total de renováveis no Nordeste

Sem água suficiente e precisando atender usos múltiplos, ONS aciona térmicas fora de mérito e importa energia enquanto aguarda chuvas atrasadas

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está despachando térmicas fora da ordem de mérito e importando energia da Argentina e do Uruguai enquanto aguarda tanto a chegada das chuvas que permitam a recuperação do armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas como a conclusão de obras de transmissão que ainda impedem a transferência plena da produção de renováveis do Nordeste.
Sinval Gama, diretor de operação do ONS, explicou a situação do Sistema Interligado Nacional  (SIN) em entrevista a jornalistas depois de participar da Energy Week, evento realizado nesta semana pelo Grupo Canal Energia by Informa Markets e que congrega o já consagrado Brazil Wind Power e o Energy Solutions Show.
O executivo disse que participou nesta semana de reunião com o Cemaden – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. “O Cemaden disse que as chuvas vão chegar e que já estava chovendo no Norte do Brasil. As grandes questões são quando essas chuvas vão ser transformar em vazão e quando essa vazão chegará nos reservatórios [das hidrelétricas], porque pode estar chovendo num lugar que não é a calha principal do reservatórios.”
Segundo Gama, o ONS monitora todo o dia a chega dessa água, porém já se constata um atraso na hidrologia. A situação mais crítica se encontra no subsistema Sul, que está com 25,38% de armazenamento equivalente. “Estamos com o pior outubro no Sul do país em 81 anos”, alertou.
Questionado sobre como o país está precisando despachar térmicas, inclusive fora da ordem de mérito, mesmo com o afundamento da carga causado pelas medidas de isolamento social, Gama explicou que existe alguns fatores operacionais que precisam ser esclarecidos.
Primeiro, todo ano o país passa pelo processo de transição entre os períodos úmidos e secos. Existe todo um conjunto de dados que precisam ser observados, como nível de armazenamento, previsão de demanda e expectativas de chuvas. Com base nesses dados, o órgão estabelece parâmetros operativos seguros para evitar um desabastecimento no suprimento elétrico.
Embora o armazenamento de energia neste ano esteja “relativamente dentro da grandeza de 2019”, a região Sul enfrenta uma seca severa e esse fenômeno inesperado e as restrições de transmissão dificultam o replecionando dos reservatórios. Para além da geração de energia, frisou o executivo, os recursos hídricos também precisam atender a outros usos, como irrigação, navegação e saneamento. Dessa forma, o ONS tem um limite para segurar água e por isso os reservatórios acabaram esvaziando, mesmo com a redução de carga verifica no período mais crítico da pandemia de Covid-19.
Para dificultar ainda mais a gestão da operação, o atraso em obras de transmissão que deveriam ter sido construídas pela espanhola Abengoa impede, em algumas momentos do dia, que o ONS utilize o máximo da geração eólica e solar no Nordeste. Isso porque o intercâmbio de energia entre subsistemas precisa atender a limites de segurança para não resultar em corte de cargas em outras regiões em caso de pertubações.
Segundo ele, em situações de carga leve, principalmente pela manhã, o ONS poderia transferir cerca de 400 MW adicionais do Nordeste para o Sudeste se o sistema de transmissão permitisse. Esse problema, disse o executivo, deverá ser resolvido totalmente apenas em 2021, com a conclusão das obras de transmissão em curso.