Ausência de plano B no Amapá impulsionou problema

Descomissionamento de usinas térmicas que operavam na região antes do estado ser conectado ao SIN deveriam ser mantidas mas com contratos de disponibilidade para evitar prolongamento de crises com a atual

O apagão que ocorreu no Amapá em 3 de novembro, e que ainda não está totalmente restabelecido tem suscitado diversas discussões sobre as suas causas e os caminhos que deveriam ser tomados para recuperar a capacidade daquela região atender seus consumidores. Uma delas deveria ter sido a manutenção das usinas e geradores térmicos a diesel que forneciam energia àquela região antes de ser interligada ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

A avaliação é de que esses ativos não poderiam se simplesmente desmontados e deixar o estado dependente de apenas uma conexão, a SE Macapá, onde se deu o problema. O caminho passaria pela adoção de contratos de disponibilidade dessas usinas que ficariam desligadas o tempo todo e só operariam em situações de emergência, como é a atual.

“O custo desses contratos seriam bem menores do que contratar a energia emergencial que temos visto agora com os geradores que estão sendo montados por lá”, comentou o diretor executivo na NEAL, Negócios de Energia Associados, Edvaldo Santana, à Agência CanalEnergia em entrevista ao vivo transmitida via redes sociais. “A estimativa é de que o custo fique em R$ 100 milhões nessa operação com a Eletronorte, mas poderia ser menor se tivéssemos ainda as usinas que foram desmobilizadas no Amapá”, disse ele ressaltando ainda que outro ponto importante dessa equação seria um atendimento mais rápido no restabelecimento do fornecimento de energia.

“A estimativa é de que o custo dessa contratação emergencial fique em R$ 100 milhões com a Eletronorte, poderia ser menor se tivéssemos ainda as usinas que foram desmobilizadas no Amapá”, Edvaldo Santana, da Neal

Esse valor, ressaltou ele, tem previsão legal de ser repassada via CDE aos demais consumidores do setor elétrico e deverá compor a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Ele estima que o montante que será repassado poderia ser menor se houvesse os contratos por disponibilidade, para que as usinas estivessem ali em caso de alguma necessidade.

O diretor do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio, Professor Délberis Lima, concorda que não é possível a demora que tem-se visto na retomada de 100% do fornecimento de energia no Amapá. Em sua análise, as causas ainda precisam ser confirmadas sobre a origem do incêndio na subestação, mas classificou a conexão do estado ao SIN como frágil e que seria necessária a redundância para a garantia de pelo menos uma retomada mais ágil no fornecimento.

“A redundância seria a solução mais apropriada, mas tem que avaliar do ponto de vista técnico e econômico. A geração térmica localizada é uma alternativa para situações emergenciais e nada disso havia, aparentemente, e que vem provocando a situação lamentável nas últimas semanas”, acrescentou.

Outro ponto abordado na entrevista foi a questão do terceiro transformador que deveria estar disponível na SE afetada mas que encontrava-se indisponível, pois estava parado para manutenção desde dezembro de 2019. Para o ex-diretor da Aneel, essa demora não é normal. Mas também citou que pode ter ocorrido uma falta de iniciativa do próprio concessionário responsável pela subestação, pois poderia recorrer a um empréstimo de equipamento semelhante enquanto o reserva estava nesse processo.

Uma das consequências para a Gemini que é a responsável pelo ativo é uma redução de sua RAP, que inclusive já deverá ser avaliada na reunião da Aneel da próxima terça-feira. “As regras da Aneel estão preparadas para o processo e há penalidades previstas”, lembrou. Mas, ao mesmo tempo criticou a falta de um plano B para a região que é a ponta do SIN no país, sendo diferente de outras regiões mais centrais onde é possível manobrar para redirecionar cargas que caem por outras vias e restabelecer o fornecimento de forma mais ágil.

Falhas de aprendizado

Na avaliação dos especialistas o país pouco aprendeu com os casos do passado. Para Santana essa falha vem desde o apagão do início dos anos 2000. Ele admite que houve casos positivos como a criação do CMSE, mas desse mesmo grupo veio problemas como o encobrimento de problemas mais graves, como o desligamento de 2009 que deixou cerca de 90 milhões de pessoas sem fornecimento por pelo menos 2 horas.

“A geração térmica localizada é uma alternativa para situações emergenciais e nada disso havia, aparentemente, e vem provocando a situação lamentável nas últimas semanas”, Délberis Lima, da PUC-Rio

Nesse evento houve a queda de uma linha de transmissão que liga a UHE Itaipu ao Sudeste e que derrubou o SIN de forma sequencial. Naquela época atribuiu-se o caso à ocorrência de um raio na SE de Tijuco Preto. Contudo, descreveu Santana, de acordo com fontes que moram naquela região, não houve o tal evento meteorológico, e as fotos dos equipamentos também não sugeriam terem sido atingidos pela descarga, mas demonstravam sim aspecto de falta grave de manutenção.

“Esse evento do Amapá é diferente, embora tenha o efeito localizado pegou o estado que agora tem força política e espero que se aprenda com o que aconteceu”, comentou.

Para Lima, o apagão deste ano ligou o sinal amarelo sobre a segurança do sistema elétrico como um todo. Para ele, é de se esperar que o país tire os aprendizados e que o assunto esteja na pauta. E nesse quesito estão a solução segurança de operação, redundâncias, a correta manutenção dos ativos que devem ser discutidos com atenção para os próximos anos.

A entrevista está disponível na nossa canal do Youtube TV CanalEnergia e seu conteúdo pode ser assistido na íntegra ao clicar aqui.