CEOs a postos para a transição energética

Desafio do processo está na adoção de novas tecnologias e escolha de modelo

Os players do setor elétrico mostraram disposição para a aceleração da transição energética. Em painel realizado nesta quinta-feira, 14 de outubro, com a presença de executivos do setor, o tom foi o da necessidade dessa intensificação,  considerada como irreversível. O CEO do Grupo Neoenergia, Mario Ruiz-Tagle, lembrou que os relatórios estão cada vez mais preocupantes, Para o executivo, o mundo não terá outra chance para avançar no caminho da transição e alcançar  a descarbonização. “Precisamos acertar a matriz energética mundial, não adianta Brasil fazer seu papel e os outros países ficarem de fora”, afirma.

Ruiz-Tagle elogiou a disposição do setor privado em participar, discutindo e engajando governos. Ainda de acordo com o CEO, a transição trará o desafio de como remunerar as novas tecnologias, criando novos conceitos e culturas nas empresas e na população. Para ele, o processo não deverá ser simples ou rápido, mas sim bem estudado, para atingir os efeitos desejados. “Temos a oportunidade de gerar grandes volumes de investimentos para tecnologias inovadores que criam emprego e renda”, explica.

A crise hídrica que o país passa, na visão do executivo, é um momento para mostrar a necessidade de um sistema de transmissão pujante. A necessidade de um licenciamento ambiental mais ágil – porém sem ser mais frouxo – para a transmissão foi outro pedido do executivo. Ruiz-Tagle pediu ainda apoio para o desenvolvimento de novas tecnologias como baterias e centrais de bombeio. Segundo ele, no momento, o Brasil faz um grande esforço a um alto custo para poupar água dos reservatórios das UHEs que acaba sendo liberada por um preço mais baixo. “Isso é dinheiro jogado fora”, critica.

A garantia de um bom modelo de transição energética também foi o pedido do CEO da Isa Cteep, Rui Chammas. Ele chama a atenção que não haverá transição se não houver uma transmissão adaptada e capaz, com um licenciamento eficiente, sem perda de qualidade. Segundo Chammas, as transmissoras estão se saindo bem, conseguindo antecipar linhas e disputando leilões.

Sobre o armazenamento, ele considera fundamental que a transmissão tenha mecanismos da absorção de variação das novas fontes intermitentes que entram no sistema. Para Chammas, o país precisa de testes em escala real, que podem até determinar a não necessidade de construção de linhas. A ampliação da transmissão entre países também foi outro ponto abordado por ele. Apesar de haver uma grande importação de Paraguai, Argentina e Uruguai, a transmissão continental deve ser incrementada, com os excedentes sendo negociados, facilitando a operação e a transição energética. “É fundamental que se eliminem as barreiras mentais que temos e que os países se interconectem”, avalia.

O salto da matriz elétrica nos últimos 20, indo de 75 GW para 180 GW,  foi destacado pelo CEO da Atiaia Renováveis, Ricardo Cyrino. A variabilidade das fontes renováveis trouxe complexidade para operação e foi uma consequência do crescimento desse mercado. O protagonismo do consumidor no mercado livre virou realidade, com o auxílio de eólicas e solares. “Nos próximos cinco anos, um em cada 2 MW são vendidos no mercado livre”, relata. O executivo foi mais um que reforçou a importância do aspecto regulatório na modernização e sustentabilidade do setor. Para ele, a ponte regulatória é importante, mas sem os ‘jabutis’. “O projeto de modernização do setor precisa avançar no congresso”, frisa, pedindo previsibilidade e estabilidade regulatória.

Pioneiro no mercado livre, Walfrido Ávila, CEO da Tradener, primeira comercializadora a fechar um contrato no ACL, considera as empresas do setor como a força motriz da transição. Segundo ele, os avanços do setor até hoje são frutos dos esforços dos players para trazer um produto fundamental para a vida do consumidor, a energia. “Não vamos ter transição nenhuma se não tivemos empresas muito fortes”, analisa. Ávila também pediu mudanças que estariam afastando investidores e para as novas tecnologias, dando como exemplo a tarifa de transmissão noturna cobrada de usinas solares,  mesmo sabendo que ela não vai gerar nesse período.

Classificando a descarbonização como uma obrigação e urgente, o Country Manager da Enel no Brasil, Nicola Cotugno ressalta que já há evidências dos impactos das mudanças climáticas no mundo. “É um tema que nos impõe de pensar a resiliência de nossos sistemas”, avisa. Para ele, as emissões de outros setores são pouco debatidas. Ele conta que a descarbonização no setor já pode ser feita com o que já está disponível, integrando tecnologias.

Os 29 anos daqui até 2050 são considerados como tempo exíguo por ele para uma revolução energética. O setor elétrico deve se aproximar mais de outros setores da sociedade. O executivo da empresa italiana aposta na eletrificação do transporte como um dos componentes da transição. “Já é uma possiblidade concreta, já temos um trabalho gigante a fazer”, completa.

Cotugno elogiou o mecanismo de resposta de demanda, considerado por ele uma ferramenta que evita a criação de um período de pico. “É algo que está em outros mercados há anos e gera valor, de forma simples e rápida”, explica. O tempo mais veloz de construção de uma usina renovável, que leva de 12 a 15 meses, foi outra vantagem que a o movimento de transição traz, assim como a geração de empregos e renda nas regiões mais pobres do país.