Hidrogênio verde deve ser o combustível da transição

País se ressente de metas e indicadores obrigatórios de eficiência energética

O hidrogênio verde (H2) deverá despontar nas próximas décadas como o energético que vai substituir com êxito o petróleo e o gás. Em painel do Encontro Nacional dos Agentes do Setor Elétrico sobre a sustentabilidade no consumo de energia realizado nesta sexta-feira, 15 de outubro, o coordenador do Grupo de Estudos de Energia Elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Nivalde de Castro, afirmou que até 2040 ele deverá estar pouco acima do mercado de óleo e gás. Na década seguinte, já será superior. Para ele, para que metas sejam cumpridas, é preciso que exista um recurso capaz de substituir toda a demanda de óleo e gás – no caso o hidrogênio – e os países desenvolvidos não reúnem condições de suprir a demanda de energia verde e da reconversao das cadeias produtivas

De acordo com o coordenador do Gesel, a produção de hidrogênio verde no Brasil poderá se tornar uma grande oportunidade. Muitos países da Europa não terão como produzir o suficiente para abastecer a demanda e precisarão importar o energético. Ele dá como exemplo a Alemanha, que vai importar 90% da sua necessidade de consumo de H2 em 2050. Ainda segundo Castro, essa produção de H2 faria com que os investimentos em geração e transmissão aumentassem sem depender da demanda.

O debate sobre a sustentabilidade do consumo vai além da fonte e também alcança a eficiência energética, um conceito que ainda não está totalmente difundido no Brasil. Para o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia, Frederico Araújo, a EE também pode trazer um ganho na sustentabilidade. Somente a indústria tem um potencial de economia de R$ 4 bilhões por ano, o triplo da usina a carvão Pecem I (CE) . “Quando começamos diminuir o desperdício, aliviamos todo o sistema brasileiro, desde a geração”, comenta.

Ainda segundo Araújo, hoje no país não há indicadores obrigatórios de eficiência para os segmentos industrial e comercial, o que prejudica qualquer tipo de esforço. “Hoje consome-se do jeito que quiser o Brasil”, lamenta. A falta de obrigação tiraria o impacto de leis de eficiência ou de projetos com o Procel. Ele conta que há um aumento de procura na questão do ESG, que envolve eficiência.

A falta de metas de eficiência energética acaba trazendo pouca competitividade para as empresas, que pagam uma energia cara e não há cuidado na gestão de energia. “Falta uma cultura de eficiência”, avisa. O presidente da associação pede novos modelos de negócios, como a realização dos leilões de eficiência, que já foram aventados pela agência reguladora. A associação está lançando um fundo de investimento de eficiência.

Representando 300 clientes do mercado livre, Bruno Vieira Lopes, Superintendente de Gestão de Consumidores e Geradores da América Energia, vê o engajamento dos consumidores na contribuição para a sustentabilidade no consumo de energia. Segundo ele, há uma forte adesão aos I-RECS desde 2009 e o movimento foi iniciado por empresas de fora do Brasil que se ampliou para as locais. Lopes também cita os PPAs corporativos com renováveis como mais uma mostra de engajamento, entendendo mais o negócio. “Quando ele alavanca um novo projeto de geração de energia, ele passa a entender qual o custo do projeto”, explica.

O executivo da América Energia cita ainda o setor de bebidas, que vem investindo em autoprodução renovável, dando largada em vários projetos de eólicas e solares, incluindo na sua cadeia. Ele também vê uma boa perspectiva para o H2, frisando que pode ser uma boa alternativa para o setor de transportes.

As mudanças em modelos de negócios e tecnologias que o setor elétrico vem passando são similares as que o setor de telecomunicações passou no início do século. De acordo com Flavio Souza, Diretor Comercial da CPFL Soluções, a tendência do consumo de energia é que ele apenas cresça, o que vai demandar a definição de padrões de consumo. “Requer que tenhamos soluções e um planejamento muito bem estruturado”. pontua. Segundo Souza, a boa gestão da energia não pode ser esquecida.

O diretor da CPFL Soluções foi mais um que se mostrou animado com o hidrogênio verde, revelando que vem conversando com clientes que tem interesse em investir na fonte. “O objetivo é investir em todas as fontes e nos produtos e soluções de mercado para atender os clientes”, aponta.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica, Flavio Neiva, reforçou que apesar da entrada de novas tecnologias e fontes renováveis, a expansão com a fonte hídrica ainda se faz necessária. Segundo ele, a controlabilidade que as UHEs oferecem é essencial para um sistema interligado. Segundo ele, UHE também tem despachabilidade que segue a curva de carga, enquanto a térmica está na base.

Neiva alertou que a construção de reservatórios de acumulação deve voltar a ser debatida. “O Brasil não está enfrentando fortemente essa necessidade”, denuncia. Segundo ele a fonte eólica não é capaz de suprir essa lacuna do sistema.