Fitch aponta risco de inadimplência e pressão de tarifas em 2022

Relatório aponta risco de inadimplência e perda com pressão sobre tarifas de distribuidoras, mas avalia novo empréstimo como positivo

A Fitch  Ratings projeta crescimento modesto de 2,2% no consumo de energia elétrica para 2022, mesmo percentual esperado para o Produto Interno Bruto. A avaliação é de que a manutenção do preço elevado da energia para o consumidor, associado ao ambiente macroeconômico desafiador do ano que vem, poderá aumentar as perdas de receita das distribuidoras e a inadimplência.

A previsão contrasta com o resultado de 2021, para o qual é esperado crescimento do PIB e do consumo de eletricidade de 5%.

A piora nos índices de arrecadação das distribuidoras pode vir como consequência dos reajustes tarifários elevados esperados para o ano. O lado positivo, na avaliação da agência de rating, é que as distribuidoras terão maior cobertura tarifária para perdas de energia, recuperação das perdas econômicas associadas à pandemia e o provável repasse aos consumidores de mais de 80% dos R$ 4,8 bilhões de custo estimado da Conta Covid.

A nova operação de crédito  para o setor manter o nível de liquidez  das distribuidoras em situação confortável, compensando os descasamentos entre fluxo de caixa e custos com compra de energia ao longo de 2021, não cobertos pelas bandeiras tarifárias.

As condições devem ser semelhantes às do empréstimo da Conta Covid, com prazo de pagamento em torno de cinco anos, diluindo os impactos tarifários inicialmente previstos para 2022 e com  efeitos também no controle de perdas e nos índices de inadimplência.

Mesmo com algum alívio na situação hídrica, os níveis de armazenamento ficarão abaixo do histórico, e as medidas de recuperação dos reservatórios manterão pressionadas as receitas de geradores hidrelétricos, como Cesp e AES Tietê, e beneficiarão os termelétricos, como Eneva. O GSF, que reflete o déficit de geração das hidrelétricas, deve ficar em 0,80 no ano que vem, e Preço de Liquidação das Diferenças médio em R$190/MWh.

O segmento de menor risco do setor elétrico continuará sendo o de transmissão, mesmo com a possibilidade de rentabilidade menor para futuros reforços e melhorias, e o de maior risco o de comercialização de energia.

As empresas do setor devem manter um perfil de liquidez sólido, pelo acesso a fontes de financiamento de médio e longo prazos, com a alavancagem financeira permanecendo adequada, aponta o Analista Sênior Wellington Senter. A média da relação dívida líquida/Ebitda vai se manter em cerca de 3,0 vezes em 2022.

A privatização da Eletrobras, que tem avançado e deve ser concluída no próximo ano, também terá impactos para o setor. O relatório destaca que parte dos recursos da capitalização da companhia será direcionada ao governo como pagamento de outorga. E que as condições de venda de energia com a descotização das hidrelétricas serão mais favoráveis à empresa, em um processo que tende a aprimorar a regulação do setor. As tarifas terão preços de mercado e o risco hidrológico sai do consumidor para o gerador.

Para 2022, a Fitch espera estabilidade dos ratings da companhias do setor. Para 92% delas, a nota da agência é ‘AAA(bra)’ ou ‘AA(bra)’, refletindo a previsibilidade, no caso da transmissão, os contratos de médio e longo prazos da geração e o monopólio natural das distribuidoras, que tem embutidos em suas tarifas os custos não gerenciáveis.

No início desse mês, 82% das classificações tinham Perspectiva Estável, 9% estavam em Observação Positiva e 9% em Observação Negativa. Como a expectativa é de que as empresas devem apostar em novos projetos, fusões e aquisições, pode haver alteração nos perfis financeiros, com impacto nos ratings.