Hidrologia pesa 50% na formação do preço de energia, aponta estudo

CCEE considera que há um desequilíbrio no modelo uma vez que o nível de armazenamento em UHEs tem uma participação de apenas 13% para a definição do valor

Um estudo apresentado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica apontou que diminuir o tempo considerado no histórico de afluências não resolve a questão da volatilidade de preços. A conclusão foi apresentada durante o Fórum Formação de Preços, realizado nesta quarta-feira, 25 de maio, em São Paulo. Agora a entidade deverá debruçar-se sobre o que pode ser a causa da volatilidade, uma vez que o período histórico de 91 anos não é considerado como o culpado pela variação ante a realidade da operação.

Uma das teorias que podem ser consideradas é justamente o que vem se falando no setor há algum tempo, há um desequilíbrio no modelo computacional. Essa situação pode estar localizada justamente nos pesos que cada um dos itens do Fluxo de Custo Futuro possuem. Segundo o estudo, a hidrologia responde por 51% da variação dos valores ao passo que o armazenamento apenas 13% quando o assunto é comportamento dos preços. A carga é responsável por cerca de 10%, a disponibilidade 11,5%, expansão 1,6% e outros fatores por 11,6%.

De acordo com Rodrigo Sacchi, gerente de preços da CCEE, o próximo passo da entidade é de desenvolver estudos nesse sentido, de investigar se o desequilíbrio realmente está nesse ponto, se é necessário diminuir o gap entre o peso da hidrologia futura ante o nível de armazenamento de água em reservatórios.

“O que identificamos é que não faz sentido reduzir o histórico de vazões, apesar da volatilidade de preços da energia”, definiu ele. “Uma das preocupações que temos é entender se essa diferença entre a previsão de hidrologia e o que temos de água armazenada precisa ser reduzida ou se está adequada, precisa ficar claro diante dessa incerteza que temos”, acrescentou.

Segundo dados apresentados no evento realizado, o histórico de vazões de 20 anos apresenta PLD menor apesar dos eventos climáticos mais recorrentes de seca. E isso é explicado pelo local onde as chuvas caem, pela correlação entre seca no NE e sobre de água no Sul e Norte e a geração a fio d’água, que acaba sendo compulsória.

Segundo Sacchi, os estudos deverão começar em breve e não há um prazo para ser terminado. O assunto já esteve no foco da Comissão Permanente para Análise de Metodologias e Programas Computacionais do Setor Elétrico (CPAMP), mas não faz mais parte, neste momento, do escopo de atividades do grupo. Esse será um estudo que a própria CCEE desenvolverá para ter o entendimento sobre esse assunto.

“Em tese a hidrologia e o armazenamento deveriam ter o mesmo peso e hoje não tem, aparentemente há um desbalanço, essa é a conclusão com base nos levantamentos que temos até agora, mas precisamos olhar os modelos e como as afluências estão consideradas”, acrescentou ele.

Donato Filho, CEO da Volt Robotics, responsável pelo estudo comentou ainda que o modelo atual é ruim. Um reflexo está na não observância dos resultados apresentados, por exemplo, na crise hídrica, quando tínhamos térmicas de mais de R$ 2 mil por MWh sendo despachadas enquanto o modelo apontava preços de R$ 200. E isso tem como consequência a geração de encargos que todos os consumidores devem pagar, além de ser uma sinalização errada aos consumidores. Isso, diz ele, traz ineficiência ao setor como um todo.

“Ainda não entendemos o porquê do armazenamento valendo tão pouco, o Brasil é um país geologicamente antigo e por isso não tem grandes quedas. Então, com usinas com quedas pequenas como temos, se o reservatório esvazia, o modelo deveria se desesperar se caísse o nível de armazenamento. O modelo não captura o valor do reservatório, ainda precisamos investigar porque isso acontece”, comentou o executivo. “Por isso temos vivido essa verdadeira gangorra no patamar de preços”, finalizou.