Alerta para preservação de recursos hídricos está aceso

Aumento da demanda por energia em todo mundo, usos múltiplos da água e mudança no regime de chuvas colocam stress em sistemas altamente dependentes da água

Em tempos de mudanças climáticas, aumento da demanda por energia e seus usos múltiplos está aceso o alerta quanto à necessidade de cuidar do recurso para alimentar até mesmo a produção de outras fontes de geração como a biomassa. Esse foi o principal ponto levantado durante o segundo dia do Simpósio Global de Soluções Sustentáveis de Água e Energia, realizado pela Itaipu Binacional, dessa vez, em sua sede na margem direita.

Dados apresentados em diversos estudos de casos registram um aumento da demanda por energia ao passo que a transição energética avança. Ao mesmo tempo há queda no volume de chuvas ao longo dos últimos 20 anos, fenômeno semelhante ao que ocorre no Brasil e que a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica detalhou em evento sobre formação de preços, realizado em maio, em São Paulo.

Essa informação foi compartilhada pelo diretor do escritório regional para as Américas da Organização Meteorológica Mundial, Julian Baez. Ele lembra que no ano passado foram registrados aumento do consumo de energia de forma concomitante à redução da geração hidroelétrica. Um dos motivos, além da falta de chuvas é a necessidade do uso do recurso para consumo humano.

O chefe da Divisão de Energia e Meio Ambiente da Agência Internacional de Energia, Tom Howes, ressaltou que as mudanças climáticas colocam stress em sistemas de energia de países que mais dependem da fonte hídrica. Ele reforça o fato de que os investimentos devem ser feitos com foco em estabelecer um sistema mais resiliente às alterações climáticas.

Em sua avaliação, um sistema com mais capacidade de suportar essas intempéries fornece uma solução de custo mais efetivo para a segurança energética. Outro ponto destacado é que permite o acesso universal a energia mesmo em países vulneráveis. E ainda, permite a transição a um sistema com energia limpa.

Pascual Fernández, CEO da estatal Canal Isabel II de Madri (Espanha), reforça que a mudança climática é uma realidade naquela localidade. Apontou que o volume de chuvas recuaram 20% nos últimos 20 anos e ao mesmo tempo a população aumentou na casa de 6%. Consequentemente, houve aumento da demanda por água e por energia. Tanto é assim, explicou ele no evento, que a empresa está trabalhando para aumentar sua capacidade de geração de energia.

“Esperamos ter em 2030 100% da energia para nossas atividades, atualmente estamos em 87% com 107 MW. O objetivo é o de alcançar diferentes tecnologias, passando desde a geração distribuída solar fotovoltaica a até eficiência energética para economizar 7%”, destacou ele durante sua participação no simpósio realizado pela Itaipu Binacional e a Undesa, braço da ONU passa assuntos econômicos e sociais.

Aliás a questão da proteção dos recursos hídricos deve ser o objetivo de políticas públicas com uma abrangência holística do assim sem um foco específico. Essa é a avaliação de Nora Paéz, chefe do departamento de Adaptação às Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente do Paraguai. Ela destacou em sua intervenção que o aumento da temperatura é um fator a mais que eleva o consumo de água em diversas atividades da economia, seja a agrícola, industrial ou das pessoas.

Um exemplo que foi apresentado veio do Brasil, com a fabricante Boticário e sua atuação em um rio próximo à região metropolitana de Curitiba. Segundo Maria de Lourdes Nunes, da Fundação que leva o nome da marca de perfumes, investir em ações para recuperação desses cursos de água são fundamentais e trazem retorno financeiro. No caso apresentado, o resultado ficou ganhos de R$ 2,56 para cada R$ 1 aportado.

“A nossa principal conclusão é a de que todos ganham e os benefícios são para todos. Se a natureza é conservada isso garanta que haja água de qualidade para todos”, definiu a executiva brasileira.

A ameaça da mudança do ciclo de chuvas acaba afetando diretamente outros países que dependem desse fenômeno para a produção indireta de energia. É o caso da Guatemala. Segundo Alex Guerra, diretor do Instituto de Pesquisa em Mudança Climática do país centro americano, por lá a geração a biomassa apresenta um potencial de atender 15% da demanda por energia.

“As chuvas são as responsáveis por cerca de 70% do volume de água que é utilizado para a produção de biomassa no meu país. Se houver secas mais severas a produção recua e aí é necessário geração por meio de carvão”, relatou ele. “Ou seja, quanto mais se preservar e houver a disponibilidade hídrica, mais limpa fica a geração de energia, e evitamos a emissão de gases de efeito estufa, entramos em um verdadeiro ciclo virtuoso”, concluiu.

*O repórter viajou a convite de Itaipu Binacional